quarta-feira, 19 de abril de 2017

Canguaretama/RN: Catu dos Eleotérios e os Remanescentes Indígenas...Patrimônio cultural do Brasil!!!!!



O Catu dos Eleotérios está localizado no litoral sul das terras potiguares, distando aproximadamente 80 Km de Natal, em áreas pertencentes aos municípios de Canguaretama e Goianinha. Seu povoado é formado por aproximadamente duzentas unidades familiares.
O “Catu dos Lotero”, forma como costuma ser chamado por seus regionais, é rodeado por canaviais. Situado às margens do rio Katu (termo Tupi que traduzido para a língua portuguesa significa “bom”, “bonito”), e com uma população que ultrapassa 800 pessoas, apresenta uma memória histórica e genealógica que o remete a uma origem indígena ligada aos antigos habitantes do interior do RN, os índios Tapuias.
Os Tapuias possuíam grande força física, corpulentos, pele queimada em tons de marrom cobreado. Mantinham cabelos longos, não costumavam usar roupas, mas cobriam as partes íntimas. Eram desprovidos de pelos por todo o corpo, inclusive as sobrancelhas. As mulheres apresentavam estrutura física pequena e corpos rechonchudos. Adornavam seu corpo com penas de aves, folhas de plantas nativas e raízes. Utilizando pedaços de paus, confeccionavam brincos e colares. Pintavam o corpo com tinta extraída do fruto de jenipapo a fim de adquirirem um aspecto terrível nos combates. 
Ao se referir à povoação de Canguaretama, Olavo de Medeiros Filho[1]descreveu que logo após a Guerra dos Bárbaros[2], os índios foram aldeados na Lagoa de São João. Cinco anos depois, a Aldeia de São João Batista da Ribeira do Cunhaú ainda existia. Em 1858, com a transferência da sede do município de Vila Flor para povoação de Uruá - que passou a se chamar Vila de Canguaretama - índios Tapuias passaram a viver no local, se empregando na fabricação de vasos de barro, ornamentação de cuias, cestas de palhas e cordas. Possivelmente, estes Tapuias foram descendentes dos antigos Tapuias da aldeia São João Batista da Ribeira do Cunhaú, fundada em 1702. (MEDEIROS FILHO: 1997, p. 62). Paralelamente a estes fatos, pode ser observada a existência de descendentes de índios através da presença de caboclos. 
De acordo com a memória popular, o povoado do Catu originou-se por volta do ano de 1850, quando três irmãos pernambucanos de etnia Potiguara pertencentes a uma família de sobrenome Eleotério (Serafim, Manoel e Antônio), sendo um deles casado com uma índia Tapuia, receberam as terras do Catu de um padre chamado Aquino de Góis. Daí o nome do lugar ser Catu dos Eleotérios.
Recém chegados a região, os três forasteiros se uniram a alguns Tapuias que viviam em Vila Flor e que haviam descido ao antigo Povoado do Uruá, desta forma, pode-se cogitar a possibilidade de que seus moradores sejam descendentes dos índios Tapuia Canindé daquele povoado.  
Possivelmente, alguns indígenas chegaram ao Catu foragidos de aldeamentos liderados pela igreja católica. Também é provável que alguns negros se fixassem na localidade buscando alternativas ao trabalho escravo em que estavam submetidos nos engenhos da região.
Da família dos Eleotérios, descenderam diretamente quatro vertentes genealógicas: Os “Canário” (descendentes de Antônio Eleotério Soares); Os “Tibúcio” (descendentes de Manoel Tibúcio); Os “Punaré” (descendentes de Manoel Inácio Eleotério) e Os “Serafim” (descendentes de Serafim Antônio Soares). Posteriormente, surge outra ramificação dos Eleotérios: “Os Arcanjos” (a partir da 5º geração de descendentes de Serafim Antônio Soares surge a família Arcanjo, fruto da união de uma descendente direta dos Eleotérios com um homem da região).
Nas terras do Catu está localizada a nascente do rio que preserva o seu nome, o qual se estende até a Sibaúma, lugar onde se une ao mar. Este mesmo rio, ainda no século XX, serviu como marco divisório utilizado na jurisdição política entre os municípios de Canguaretama[3] e Goianinha. Muitos de seus moradores se utilizam das águas do rio Catu para diversas atividades, que vão desde a agricultura familiar ao uso doméstico.
Durante muito tempo as famílias do Catu dos Eleotérios estiveram articuladas ao processo produtivo do látex da mangabeira, cujo líquido, transformado em borracha, teve grande importância como produto de exportação. Com o declínio da produção da borracha, seus moradores passaram a dedicar-se à extração da madeira para que fosse utilizada como combustível na produção de energia através de um gerador[4] na cidade de Canguaretama. Além do extrativismo, a produção de azeites, carvão vegetal para consumo doméstico, farinha, o cultivo de hortaliças e outros alimentos em “pauls” direcionados ao abastecimento local contribuíram para o estreitamento das relações sociais entre os Eleotérios e as comunidades circunvizinhas. Atualmente, grande parte dos moradores do Catu continua inserida no trabalho rural, estando empregados nas grandes usinas de cana-de-açúcar da região ou em fazendas locais. Outra parcela está agregada no mercado de trabalho das cidades de Canguaretama e Goianinha. Outros desenvolvem diversas atividades autônomas, sendo em sua maior parte comerciantes e pequenos produtores agrícolas, distribuídos entre homens e mulheres, e que participam de feiras livres em Canguaretama e em algumas cidades próximas.
Após a década de 1960, foram verificados alguns movimentos migratórios em direção ao Catu provenientes de cidades paraibanas que fazem fronteira com o RN. Atraídos pela oferta de emprego ou ao adquirirem pequenos lotes de terras em localidades próximas, alguns imigrantes transferiram seus familiares para o Catu, outras pessoas contraíram matrimônio com indivíduos que antes já moravam na comunidade, surgindo assim, novas famílias.
Neste processo, a forma de ocupação da maioria das terras, continuou a se dar por herança. Não havendo terras suficientes para se repartir, os pais por tradição, passaram a abrigar os novos casais em suas próprias residências, ampliando o número de familiares sob o mesmo teto. Esta prática, que se remete aos antigos aldeamentos indígenas, continua a se repetir na comunidade do Catu, até os dias atuais.
O Catu dos Eleotérios teve uma grande parcela de seu território expropriado pela agroindústria, uma vez que, muitos de seus moradores venderam lotes de suas terras à Usina Estivas para que se desse a prática do plantio da cana-de-açúcar. Na década de 1990, a usina Baía Formosa também passou a explorar suas terras ao realizar arrendamentos a médios proprietários. 
Os remanescentes indígenas do Catu perderam a maioria dos seus costumes tribais. Suas habitações passaram a ser feitas com barro, tijolos, cimento e telhas. Desta forma, paulatinamente, as antigas casas construídas com folhas de palmeiras e estacas de pau foram desaparecendo. A maioria de sua população foi convertida às religiões monoteístas, abandonado assim, a maior parte dos antigos rituais em que cultuavam várias divindades. Preservou-se, porém, o Culto à Jurema[5].
Alguns hábitos indigenistas ainda podem ser percebidos em uma das formas pela qual garantem seus alimentos, onde com o auxílio de técnicas rudimentares, caçam, pescam, plantam e coletam o necessário para sua subsistência. Na prática da medicina, conseguem curar-se de doenças fazendo o uso de plantas e ervas através de chás e xaropes naturais: o “lambedor”. Sua cultura também permanece viva refletida no artesanato praticado por seus moradores. 

A Dança do Toré e o Catu dos Eleotérios :

Inicialmente, como forma de expressão cultural, os moradores dos Eleotérios costumavam praticar a dança do Coco de Zambê. Com o passar dos anos, esta prática foi substituída pelo ritual do “Toré[6]”. A partir de então, os indígenas do Catu passaram a apresentar-se publicamente, reafirmando sua identidade indígena.
O Coco de Zambê, regionalmente conhecido como Zambê-do-Pau-Furado, é uma dança cuja origem é creditada aos antigos escravos que habitavam a zona litorânea do Rio Grande do Norte.  Caracteriza-se por uma coreografia individual e composta exclusivamente de homens. O seu ritmo é formado por atabaques, pequenos tambores, ganzá e afoxé ou maracá.
Sua dança ocorria em diversas localidades, dentre elas: Pipa, Sibaúma (Tibau do Sul), Vila Flor e Canguaretama. Destacando-se o Engenho Cunhaú, que somado a um complexo de outros engenhos de cana-de-açúcar fixados no vale do rio Cunhaú, aglomerava uma considerável população negra destinada ao abastecimento da mão de obra.
Desta forma, no Rio Grande do Norte em que supostamente não havia a presença indígena, a comunidade do Catu dos Eleotérios surge como importante remanescente, conseguindo sobreviver a mais de 500 anos de perseguição e alienação provocadas pela ambição e intolerância do Homem Branco em terras brasileiras.
O Toré reflete uma forma viva e emblemática de expressão da cultura, religiosidade e identidade dos povos indígenas. Estão inseridas nele diversas manifestações objetivas e subjetivas, dentre elas: a música, a dança e a ingestão de bebidas (destacando-se a jurema, feita com cascas e raízes sagradas e que através de sua ingestão permitem a comunicação com seres espirituais, muitas vezes, antepassados).
Acompanhado por maracás, gaitas, totens, amuletos, pisados fortes no solo e pelo coro das vozes dos dançarinos, o Toré representa para os povos indígenas a conquista do seu espaço e a preservação de seus costumes diante de outros povos de diferentes culturas. Mais que isso, é um ritual sagrado.
De acordo com alguns pesquisadores, a origem do toré advém da língua tupi. Desta forma, a palavra to’rë, se refere a um instrumento de sopro, denominado “torto” por possuir este formato. É feito de bambu, couro de jacaré ou barro e se assemelha muito a uma flauta. Para outros, a palavra tem origem afro-ameríndia, e se caracterizou por ser uma dança circular praticada por homens e mulheres, aos pares, onde era tocado o tal instrumento. 

 Narrativas do Catu dos Eleotérios: 

 A Mãe-d’água:
 A Mãe-d’água é um vulto que utiliza seus poderes sobrenaturais para aparecer nas margens do rio Katu e desaparecer sem deixar vestígios. As narrativas falam que a Mãe-d’água pode ser observada sempre perto do rio, muitas vezes de cócoras, e quando alguém se aproxima dela, um salto rápido dentro das águas a faz desaparecer sem deixar nenhum vestígio.

 A Comadre Fulozinha 
A Comadre Fulozinha é um espírito da floresta protetor dos animais e está ligada às caças e à ambientação da floresta; ora ajudando ao caçador, lhe facilitando a caça e, ora, impedindo-o, punindo-o, atrapalhando-o.
Seu verdadeiro nome é Adelina. Esta entidade utiliza um apito, de tal forma que, quando apita longe está perto e ao apitar perto, está longe. Aquele que tiver amizade com ela terá sucesso em sua caçada. Porém, se alguém ousar chamá-la de Caipora, ela ficará furiosa e como forma de castigo, não conseguirá ter sucesso durante a caça.

O Lobisomem do Catu:
O lobisomem do Catu é uma criatura folclórica com formas de lobo, mas com o corpo semelhante a um ser humano.
A narrativa conta que este bicho costumava aparecer na mata do Catu em noites de lua cheia. Para que houvesse a metamorfose, ainda na forma humana e sob esta fase da lua, o indivíduo teria que deitar-se em uma espécie de lastro utilizado para burros dormirem. Em seguida, precisaria se despir de todas as suas roupas, de forma que fossem feitos sete nós nas vestimentas retiradas. Para finalizar o ritual, seriam pronunciadas as seguintes palavras:
Deita bicho. Espicha-te rabo. Levanta-te bicho. Com todos os diabos.”
Ao se transformar em lobisomem, a criatura percorreria por sete noites consecutivas sete cidades. Por último, teria que retornar ao lugar da transformação e desfazer os nós feitos nas roupas antes que o galo cantasse. Caso não conseguisse, se tornaria em lobisomem para sempre.

Fonte: Memórias de Canguaretama Volume I - Autor Erivan Ferreira


[1]MEDEIROS FILHO, Olavo de. Aconteceu na Capitania do Rio Grande. Natal; Departamento Estadual de Imprensa; pg 99; Natal, RN; 1977. 
[2]Guerra que durou cerca de 70 anos (1650 - 1720), na qual nativos do Rio Grande do Norte e principalmente do Ceará, e alguns de Pernambuco, Piauí e Parnaíba se uniram em uma confederação para enfrentar o conquistador branco.  Em consequência da Guerra dos Bárbaros, centenas de índios teriam sido dizimados no interior.  De acordo com relatos,  até as duas primeiras décadas do século XVIII havia centenas de nativos no território potiguar.  
[3]Nestor Lima, em Estudo sobre os Municípios do Rio Grande do Norte, ao se referir ao rio Catu, descreve: “Que nasce nos taboleiros da “Matta do Marfim”, abaixo da nascença do rio pequery e divide o município com o de Goyaninha, dahi pra baixo. Tem um curso de 4 legoas no município, passa nos lugares: Catu de Cima, Gruta do Bode, Maxixi, Marajá, Engenho Catu, ou Triumpho, Catusinho, Engenho Barraca e Entre Rios e faz barra no Atlântico no lugar “Sibaúma” (...) (LIMA 1990 p. 82).
[4]De acordo com o historiador Francisco Galvão, o gerador pertencia a Guilherme Gouveia, posteriormente, em 1930, foi vendido ao Sr. Romualdo Galvão. A partir de então, passou a funcionar com óleo diesel, sendo desativado no ano de 1965.
[5]O Culto à Jurema permaneceu durante muitos anos, sendo realizado por Chico Lotéro e Pedro Palhano. Chico realizava nas matas uma dança ritual que foi citada por dona Silvina de “Ritual Tapuia”; e Pedro Palhano foi o Mestre que Iniciou dona Geralda nas mesas de Jurema”. - Prof. Rômulo Angélico, Licenciado e bacharel em História (UFRN); especialista em Ciências da Religião (UERN).
[6]Na dança do Toré dos dias atuais, está presente uma música do antigo “Ritual Tapuia”: “Eu estava no meio da mata, no toco embolando mel/quando olhei estava cercado dos Tapuias de Kanindé”. Kanindé, como sabemos, foi um dos últimos grandes líderes tapuias, filho do grande Tuxá Janduí. Kanindé organizou um exército com centenas de índios, muitos dos quais utilizavam armas de fogo e sabiam montar cavalos melhor que os holandeses”. - Prof. Rômulo Angélico, Licenciado e bacharel em História (UFRN); especialista em Ciências da Religião (UERN).

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